Papai não voltou




Sergio da Motta e Albuquerque
3/2/2020



Eu lembro quando esperava meu pai chegar do trabalho, lá na casa de uns tios, no que era então a chamada “Zona Rural” do Rio de Janeiro. Era uma propriedade grande, e estávamos na década de 1960. O portão, sempre aberto até as primeiras horas da noite, ficava a uns 300 metros ou mais à frente da entrada principal da casa sede. Eu olhava a distância, e o caminho de pedras regulares, em forma de cubos e pintadas de branco que conduziam à entrada principal da residência. Imaginava então se meu pai voltaria para nós, ou não. Um sentimento estranho me invadia, naquelas horas mortas, em que eu quase sempre estava só, naquela ampla sala.

Não era bem tristeza, aflição ou nostalgia aquilo que eu sentia. Era um tipo de contemplação, plena de ansiedade, silêncio e mais algo para o qual eu não tenho palavras. Um tipo de lamento antecipado, caso o pior acontecesse. Quase um estado de consternação.

Um dia, não muito distante, aconteceu.

Não porque eu tivesse o dom da previsão. Mas, um dia meu pai saiu para trabalhar, e nunca mais voltou. Faleceu no local de trabalho, a conversar com minha mãe. Papai morreu alguns anos depois das minhas estranhas tardes na casa dos tios, onde eu o esperava todos os dias, olhando inseguro à distância o velho portão branco da casa dos meus tios.
 
______________

Dedicado à toda(s) a(s) minha(s) famílias, primos, primas, tias (Helena),  tios que já não estão neste mundo, e a todos que se lembram com carinho de um tempo muito curto, em que todos nós estávamos juntos, e felizes. Sem muitas perguntas.

Comentários

  1. Bela e emocionante narrativa! Essa casa, se não estou enganado, era a da Tia Angelina e Tio Moacir. Ele não cheguei a conhecer (assim como a seu pai) e tampouco conheci a casa, mas Tânia Maria sempre me falava dela. Era como se eu a conhecesse!
    abs
    aeo

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