O microscópio





                            















                                                                                               Sergio da Motta e Albuquerque    


Eu lutei por ele por um bom tempo, e pressionei meus pais até que me dessem um no Natal. Era meu grande sonho de menino, e fazia parte de um conjunto maior, que envolvia um laboratório infantil de química, alguns livros e outros objetos compatíveis, que eu ocultei por trás de uma cortina de tecido que minha mãe fez para separar um pequeno espaço do meu quarto, onde eu organizava minhas presunções científicas de menino. Meu microscópio era o centro de tudo.

Um médico amigo de minha mãe, um homem alto e forte chamado Álvaro, foi o responsável por minha curiosidade pela explicação aprofundada dos fatos e da natureza. O nome dele era Álvaro – um filho de portugueses que tinha o mesmo nome de um de meus trisavôs paternos. O Dr. Álvaro era uma espécie de campeão intelectual e um guia aventureiro na cidade do Rio de Janeiro entre os meninos do bairro.

Ele organizava pequenas excursões com a garotada, levando em seu auto os pequenos às praias mais distantes e desconhecidas da cidade, naquele Rio ainda misterioso dos anos de 1960. Com ele conhecemos encantos arrebatados em florestas urbanas, com o Alto da Boa Vista e suas matas ali plantadas por Dom Pedro, alguns escravos e um inglês que acabou entrando na história da cidade como o “Major Archer”. O Álvaro contou.

O médico tinha um espírito científico. Explicava tudo em detalhes. Um dia, no início da noite, ele, não sei de que forma, capturou um morcego, que depois exibiu a todos contra uma mesa de vidro. Espantados, examinamos juntos aquele estranho animal voador que nunca víamos, e assustava até os mais destemidos entre nós. Ver a criatura ali, fragilizada a debater-se contra a superfície fria do vidral, fez com que nós, meninos um tanto ou quanto malvados, os respeitássemos além de nosso temor, e dos mitos que cercam aquelas criaturas.

Foi ele que, o Álvaro, quem primeiro descreveu as maravilhas a serem contempladas através das pequenas e poderosas lentes de um microscópio:

“- Vocês não podem imaginar como é interessante observar as asas e os olhos das môscas”, ele disse um dia. Álvaro tinha uma vasta biblioteca, era um colecionador de edições raras, um apaixonado por Winston Churchill e de todos os livros sobre a Segunda Grande Guerra que pudesse obter. Também tinha um microscópio grande para estudos. Aquele médico foi uma figura masculina muito importante em todas as escolhas que faria em meu futuro.

Os anos passaram, e com eles foram os melhores momentos de nossas vidas. Álvaro, anos depois, perderia seu filho menor para as águas de uma represa profunda, próxima ao Vale do Rio Paraíba. Ele nunca mais foi o mesmo. O menino, que nós conhecíamos apenas como “Didi”, era o melhor jogador de futebol entre nós-os menores. Um dia, em meio a uma disputa de bola, brigamos. Trocamos socos, e, sem qualquer palavra, fomos ao chão, a rolar e disputar o que não havia sido decidido no jogo. Eu já havia começado a aprender Jiu-jitsu com meu pai – que aprendeu na Marinha e obteria sua faixa marrom de praticante da arte suave alguns anos depois. Mas, mesmo assim, fui derrotado, e de forma humilhante, com meu adversário sendo carregado em triunfo pelos colegas, enquanto eu jazia só ali no chão, inconformado com a aquela derrota e, principalmente, humilhado pela aclamação pública do “inimigo”. Fiquei ali um pouco, triste e inconformado. Ele era menor que eu, e um leigo total em qualquer luta. Ninguém o ensinou a lutar. Como pode vencer? Depois de algum tempo, resolvi voltar para a segurança familiar. O escuro da noite anunciava sua presença com o silêncio das crianças.

Em casa, a sós, eu e meu laboratório de faz de conta, com ajuda e esforço dos pais, eu era abençoado. Talvez mais até do que entre os meus colegas. Eu não precisava brigar ou provar nada a ninguém, a não ser a mim mesmo, na companhia exclusiva de tudo aquilo o que eu viesse a descobrir com minhas poderosas lentes. A sós e em silêncio. Sem surpresas, lutas, vitórias ou derrotas. A ciência, ou, no caso, a imagem de infância que eu dela tinha dela, bastava. Eu acreditava naquilo sem questão.

Ali, em minha casa, entre aqueles objetos que nem sempre fazem parte da infância dos meninos, eu fechava a cortina, entrava em meu ‘laboratório’ e sentia que não precisava de mais nada.


                                                  Rio de Janeiro, 10 de Fevereiro de 2020
  



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Papai não voltou